O ICCC e o movimento mundial da cerâmica contemporânea

Entre 1910 e 1930 um grupo de intelectuais japoneses liderados pelos ceramistas Shoji Hamada, Kanjiro Kawai e Kenkichi Tomimoto desencadeou o Movimento Mingei (arte do povo) que se propunha resgatar a beleza singela do trabalho produzido manualmente pelo artesão desconhecido. Suas ideias foram influenciadas na sua origem pela leitura feita por Bernard Leach, ceramista inglês da mesma geração, vivendo na época no Japão, do movimento Arts and Crafts. O Arts and Crafts Movement tinha sido encabeçado por William Morris na Inglaterra no refluxo da Revolução Industrial, defendendo a produção artesanal medievalista de artefatos sobretudo utilitários e se estendendo até à arquitetura.
As ideias do Movimento Mingei foram expressas no livro “The Unknown Craftsman” (o artesão desconhecido) do filósofo Soetsu Yanagi, que foi o principal teórico do movimento. Os artistas do movimento almejavam criar seus trabalhos com a mesma tranquilidade inocente do artesão popular rural da era pré-industrial.

O Movimento Mingei foi instrumental na expansão da cerâmica de autor como um quasi culto, praticado por quasi sacerdotes que se interligam e comunicam entre si numa quasi rede mundial, acompanhados por um público que se divide entre o apreciador/consumidor das obras e o estudante que quer abraçar a cerâmica como atividade e nela entrar como no sistema medieval de artes e ofícios, interagindo com o cotidiano do atelier e crescendo em conhecimento e habilidade dentro dele.
Bernard Leach foi o arauto dessa ideia que levou para Inglaterra e que se expandiu mais tarde para a Europa, Estados Unidos e hoje tem existência planetária.

A cerâmica, como a mais antiga das artes possui uma bagagem de experiência que lhe dá um certo esoterismo, possuído de poderes mágicos, no privilégio da interação direta com a terra (superfície da Terra), no trabalho alquímico com os 4 elementos da proto-ciência grega, Terra, Água, Ar e Fogo.
Os movimentos Arts and Crafts e Mingei ressuscitaram uma forma de vida e produção que corre no contrafluxo do desenvolvimentismo tecnológico da megalópole, estágio atual da revolução industrial.

Em 1975 Toshiyuki e Mieko Ukeseki se juntaram a Alberto Cidraes no Brasil para montar um atelier de cerâmica, fruto de compromisso assumido entre eles no Japão em 73. Com um grupo entretanto enriquecido com Vicco, Toninho Cordeiro e Rubi Imanishi construiram no ex-matadouro municipal, o primeiro forno a lenha, tipo Noborigama, em Cunha.
Toshiyuki era grande admirador da estética a um tempo contemporânea e tradicional de Kanjiro Kawai e seu trabalho no Japão e início de Brasil foi muito influenciado por ele.
O polo de cerâmica de Cunha nasceu nessa sequência, dentro do contexto da cerâmica de autor lançado pelo movimento Mingei, e se desenvolveu até aos dias de hoje, aliciando muitos outros protagonistas em várias épocas nos últimos 35 anos.

O espírito de pesquisa e experimentação que habitava a cerâmica em Cunha no início deverá fazer escola na ação do ICCC. O sentido de missão que guiava os ceramistas do Mingei habitou também desde o começo as intenções dos ceramistas de Cunha.
No ICCC a cerâmica pode continuar a pesquisa e experimentação com materiais nativos de Cunha, pode explorar as potencialidades criativas, terapêuticas e lúdicas do barro na formação de jovens e reformulação de adultos; pode também procurar e resgatar as raízes do trabalho das paneleiras e do tijolo e assegurar sua continuidade e proteger sua evolução no futuro. O reencontro de setores da população de Cunha com suas tradições dentro da cerâmica pode dar um impulso na auto estima cultural local que ajudará a uma integração com a cerâmica importada de raiz japonesa.

A ação do ICCC se projetará em 3 circulos concêntricos de distância geográfica: o local, com iniciativas pedagógicas direcionadas à juventude de Cunha, projetos de pesquisa, documentação e museologia, cobrindo materiais e história; o nacional, oferecendo parcerias de complementação a escolas de nível profissional e universitário, participando e promovendo cursos, encontros, seminários e workshops; e finalmente o internacional com programas de intercâmbio que fortaleçam a posição de Cunha no circuito global de cerâmica de autor a nível de estúdio e escola.